Fruto da parceria inédita entre as duas galerias, coletiva “Barracas e Fachadas do Nordeste” reúne mais de 60 obras dedicadas às paisagens culturais nordestinas. A abertura será no dia 30 de janeiro, junto à individual “Gabriel Branco: A luz sem nome”, em Salvador.

A Galatea Salvador abre a programação de 2026 com duas exposições paralelas. Na primeira, une-se à galeria Nara Roesler para inaugurar Barracas e Fachadas do Nordeste, coletiva que propõe um diálogo entre Montez Magno, Mari Ra, Zé di Cabeça, Fabio Miguez e Adenor Gondim a partir de obras que retratam paisagem urbana e cultural do Nordeste. E, no espaço expositivo do Cofre, apresenta Gabriel Branco: A luz sem nome, série de pinturas em que o artista aprofunda sua pesquisa que parte do corpo, da luz e da cor como elementos estruturantes da composição. Ambas as aberturas acontecem no dia 30 de janeiro e alinham-se ao calendário festivo da cidade, que celebra Iemanjá no dia 2 de fevereiro.

Com curadoria de Tomás Toledo, sócio-fundador da Galatea, e Alana Silveira, diretora da unidade Salvador, Barracas e Fachadas do Nordestereúne mais de 60 obras, entre pinturas, fotografias e trabalhos em diferentes suportes, dos artistas Montez Magno, Mari Ra, Zé di Cabeça, Fabio Miguez e Adenor Gondim. A exposição toma como eixo temático as arquiteturas vernaculares que atravessam o cotidiano urbano e as manifestações culturais do Nordeste, propondo um diálogo entre diferentes gerações e linguagens.

Obra de “Barracas e Fachadas do Nordeste” na Galatea Salvador

Fachadas urbanas, platibandas ornamentais, barracas de festas populares e estruturas aparecem como elementos centrais da exposição, entendidos não apenas como construções funcionais, mas como formas carregadas de memória social e cultural. Esses elementos, recorrentes na paisagem nordestina, operam como dispositivos visuais e simbólicos que articulam práticas cotidianas, circulação urbana e expressão cultural.

Adenor Gondim e Montez Magno convergem ao destacar as formas vernaculares do Nordeste a partir de abordagens distintas. Gondim, fotógrafo convidado especialmente para uma série para a coletiva, apresenta registros das barracas que marcaram as festas de largo de Salvador, enquanto Magno é representado por obras das séries Barracas do Nordeste (1972–1993) e Fachadas do Nordeste (1996–1997), nas quais referências da cultura popular são sintetizadas por meio da abstração geométrica.

Obra de Fabio Miguez, em “Barracas e Fachadas do Nordeste” na Galatea Salvador

Fabio Miguez, artista representado pela Nara Roesler, investiga as fachadas de Salvador como um mosaico de variações arquitetônicas, a partir de um olhar atento sobre o casario urbano e suas composições formais, em que geometria e cor estruturam a pintura. Para a exposição, o artista realizou uma viagem de pesquisa a Salvador e à Ilha de Itaparica, da qual resulta uma série inédita de pinturas concebidas especialmente para a mostra.

A dimensão urbana e migratória da mostra se amplia com Zé di Cabeça, criador do Acervo da Laje, cujas pinturas derivam de um amplo inventário visual do subúrbio ferroviário soteropolitano e evidenciam seu processo de transposição do desenho para o azulejo e, posteriormente, para a pintura. Enquanto Mari Ra aproxima fachadas de Recife e Olinda encontradas na Zona Leste de São Paulo, revelando vínculos formais produzidos pelos fluxos migratórios nordestinos.

Obra de Mari Ra em “Barracas e Fachadas do Nordeste” na Galatea Salvador
Entre corpo, luz e abstração

Gabriel Branco: A luz sem nome é a primeira exposição individual de pinturas do artista paulistano Gabriel Branco (1997, São Paulo). A mostra ocupa o espaço expositivo do Cofre da unidade e reúne 10 pinturas inéditas, realizadas em 2025, com texto crítico assinado por Paulo Monteiro.

Na série apresentada, Branco aprofunda uma pesquisa que parte do corpo, da luz e da cor como elementos estruturantes da composição. Trabalhando com óleo e cera de abelha sobre tela, o artista constrói superfícies veladas e luminosas, nas quais formas orgânicas parecem emergir e, ao mesmo tempo, se dissolver. A pintura abstrata surge como um desdobramento direto com seus trabalhos na fotografia, especialmente no modo como a luz atua como agente de instabilidade e transformação da imagem.

Obra de Gabriel Branco (1997)

Na abstração, o corpo aparece como referência inicial para o surgimento das formas. Partes de um corpo conformam outro corpo, que se adapta ao formato da tela e se reorganiza como uma espécie de estrutura orgânica. Essas formas, no entanto, não são fixas: ora evocam imagens reconhecíveis, ora se desfazem sob a ação da luminosidade, criando um campo ambíguo entre o abstrato e o figurativo.

Paulo Monteiro comenta em seu texto crítico que:

“Como toda arte abstrata que se livrou do apego aos argumentos racionais da vanguarda, a pintura de Gabriel é livre, e nessas formas podemos ver o que quisermos ver: um órgão sexual, ou o começo de uma onda, um astro no céu, a luz do sol. Tudo isso está ali presente, pulsando. E, de fato, não se está falando aqui da universalidade da arte abstrata. Estamos diante do avesso dela.”

A geometria também atravessa essa pesquisa. Em trabalhos anteriores, padrões visuais presentes em portões e estampas da periferia de São Paulo serviram como ponto de partida para o uso livre da cor. O triângulo, forma recorrente nesse momento inicial, adquire posteriormente uma dimensão luminosa e quase mística, articulando tensões entre o universal e o específico, entre símbolos compartilhados e experiências culturais situadas no contexto brasileiro.

Obra de Gabriel Branco (1997)

A luz, no entanto, não atua apenas como elemento formal, mas como força capaz de desestabilizar as próprias formas do quadro. Em alguns trabalhos, a luminosidade incide de tal maneira que dissolve contornos e embaralha referências corporais e geométricas. Essa instabilidade aproxima a pintura da fotografia, outra prática central na trajetória de Gabriel Branco, na qual a luz e o ambiente urbano — especialmente das periferias de São Paulo — produzem camadas múltiplas de significado.

Na sequência de Gabriel Branco: A luz sem nome, o artista realiza uma exposição individual na ARCO Madrid, uma das principais feiras internacionais de arte contemporânea, marcando o início de sua representação pela Galatea.

As duas exposições e a parceria com a galeria Nara Roesler marcam a celebração dos dois anos da Galatea em Salvador e reafirmam o papel de sua sede na capital baiana como um espaço de convergência e articulação no circuito de arte contemporânea. Desde a sua chegada à cidade, em janeiro de 2024, a galeria tem atuado como plataforma de intercâmbio entre artistas, curadores, galerias, agentes culturais, colecionadores e o público, em diálogo com o momento de revitalização do centro histórico de Salvador e de fortalecimento de sua vida cultural.

Obra de Gabriel Branco (1997)

Serviço: Barracas e Fachadas do Nordeste e Gabriel Branco: A luz sem nome, na Galatea Salvador, R. Chile, 22 – Centro, Salvador – BA. Abertura: 30 de janeiro das 18h às 21h. Período expositivo: 30 de janeiro a 30 de maio de 2026. Horários: Terça à quinta das 10h às 19h | Sexta das 10h às 18h | Sábado das 11h às 15h. Ingresso: Gratuito. Mais informações: https://www.galatea.art

Philos's avatar
Publicado por:Philos

A revista das latinidades